IInspirar: atitudes que transformam

EU, PAI.

December 31, 2017

                                                                         

                                      

                Quando Cecília me mostrou pela primeira vez seu rosto recém saindo do ventre da mãe tive certeza que vivia uma viragem, um ponto de mutação. Ao dobrar a esquina dessa estrada sem volta, a primeira sensação foi de vitória, de pura vitória da vida que insiste em viver mesmo contra todas as probabilidades. Vitória sobre a morte, vitória sobre a simples inexistência, vitória sobre tudo e sobre o nada.

                Deve ser estranho pensar na morte nesse momento. Confesso que pensei. No final das contas a vida e a morte são extremidades antagônicas de um fio esticado, mas se pegarmos o mesmo fio para formar um círculo, suas pontas passam a se tocar e se confundir. Para quem enterrara um amigo há poucas semanas, ver a filha nascer me pôs sob a lupa e a luz forte desse ciclo que se renova e não para, nem pode parar.

                Quem se torna pai invariavelmente assume também uma espécie de paternidade generalizada sobre todos, falta só a possibilidade de reconhecimento no registro civil. A enxurrada de amor é tão brutal que não dá para confina-la nas paredes de casa, ou reserva-la em exclusividade para o miúdo do berço. Não se olha mais do mesmo jeito para ninguém. O afeto e o carinho atingem níveis que desembaçam a visão cansada do dia a dia.

                A roupa que alma veste agora são de pura tolerância, de paciência e de cumplicidade com as dores alheias. Repara-se bem nas pessoas, imagina-se as crianças que foram, ou as crianças que são, na prova perfeita e cabal de que o menino é, de fato, o pai do homem. Passa-se a achar ainda mais vãs as vaidades, desperta-se certa intolerância para miudezas, e impossível não rir das pedras que se tinha nas mãos.

                Dizem, e Hollywood consagrou a ideia, de que quando se está na iminência da morte um filme passa perante os olhos num átimo de segundo. Na hora que o filho nasce um filme também vem, mas não é um flashback do passado. Passa um vídeo inteiro na cabeça, não do que já foi vivido, mas do que se tem para viver. Imagina-se em fragmentos a vida que vem,  o porvir, tem-se saudades do que ainda não se viu. Fui capaz de entender Índios do Legião nesse momento. Senti saudades de Cecília na escola, de Cecília falando, de Cecília se rebelando contra meu zelo exagerado.

                Quando o filho surge, trazendo consigo traços misturados dos pais e a réplica de trejeitos e sorrisos, os laços com o criador e com a criação são instantaneamente renovados, como se baixássemos uma atualização de maturidade e de deslumbramento. Deve ser esse o estado dos artistas perante sua obra prima. Filhos feitos e educados no amor são a obra prima de quem quer que seja, deixar bons filhos é o legado que todo Homem deve ao mundo e à vida.

                O nascimento do filho é o verdadeiro batismo com o transcendente, vale mais que mil mergulhos no Jordão, ou de trezentas idas a Meca. Não importa qual o credo que é confessado, não importa sequer que se confesse um credo: naquele exato instante a espiritualidade existe independente de fé. É coisa que flutua e acontece por si só. Fácil perceber os olhos marejados e olhar abobalhado.  Ter um filho só pode ser herança do divino com a firma reconhecida de Deus embaixo, exatamente como pedia o poetinha. Parece que o próprio Criador te passou o bastão e ordenou que continuasses a corrida, agora com mais pontos de exclamação nos lugares das antigas e envelhecidas interrogações.  

                Não é à toa que Deus e as divindades sempre foram apresentadas como figuras paternas ou maternas. Paternidade e maternidade são os pedacinhos mais evidentes dessa força inexplicável e imponderável que montou o universo e que moldou o mundo, da qual não ouso emprestar um nome nem desenhar seu perfil, mas que reanimei prestar devoção, seja durante o sufoco de um choro de cólica do bebê, seja perante o deslumbre de um abreviado amanhecer laranja que só estamos a testemunhar porque temos que dar cabo a uma mamada madrugadora. A paternidade é oscilar entre a impotência sobre a dor do filho e a maravilha de olhares trocados.

                Desperta-se o senso de ancestralidade e a vontade é de revisitar toda a origem e construir uma árvore genealógica. O sobrenome passa a fazer sentido e ter nexo. Um dos primeiras sintomas da paternidade é se importar mais com os próprios pais. Entende-se de súbito todas as preocupações bobas ou os excessos de cuidado que os genitores tinham. Perdoa-se com presteza alguma mágoa que possa ter enraizado. Veste-se com propriedade os calçados apertados dos pais.

                Presenciar o nascimento do filho é tatuar para sempre na memória que cada segundo é um milagre. A bússola da vida passa a ter outro norte, te levando a caminhos onde se respira um ar mais puro e inocente. Filhos são depuradores do ar de uma casa.

                É certo que todo esse estado de graça deve ser regado continuamente para não perecer ou se perder na rotina de problemas. A quem foi concedida a dádiva da paternidade e da maternidade, descabe renunciar dos inigualáveis benefícios de calibragem dos sentidos e do afeto. O desafio é aproveitar a avalanche de amor e se deixar nutrir cotidianamente de novas doses dessa experiência para que ela nunca acabe. Aproveitar o espelho do filho para relembrar o sorriso que se deu na infância. O filho é uma máquina do tempo que a vida te dá para voltares à infância.

                Ao atender o chamado para ver Cecília, olhei para os seus olhos abertos e ainda azuis, e vi que eles já refletiam um outro eu cujo reflexo me agradou e me deixou em paz. Daí em diante não haveria mais armistício: eu estava armado para sempre com todo o amor que posso carregar.

 

 

DESAFIO AO LEITOR

 

Qual experiência em sua vida foi profundamente transformadora?

Te desafio listar três coisas que essa experiência mudou em sua vida e descrever que pessoa te tornaste a partir dessas mudanças.

Como se faz para nos mantermos armados de amor durante momentos de desesperança ou raiva?

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