IInspirar: atitudes que transformam

A TRAGÉDIA SILENCIOSA

January 17, 2018

                                       

                   

                                                                                                        “Nossa alma incapaz e pequenina
                                                                                                         Mais complacências que irrisão merece.
                                                                                                         Se ninguém é tão bom quanto imagina,
                                                                                                         Também não é tão mau como parece.”

                                                                                                         (Mário Quintana, poeta)

 

 

 

                    Quando Alice[1] sentou na cadeira a minha frente, tinha ombros arqueados, o olhar baixo, desconfiado, talvez com medo.

                    O que estava por trás daquele olhar?

                    Tinha de descobrir em poucos minutos. Era a entrevista de início de ano que a ONG Sociedade Alternativa faz antes de começarmos nosso projeto Sementes de Cidadania com crianças e adolescentes.

                    O objetivo da entrevista é conhecer um pouco melhor a história, sonhos e a personalidade daquelas crianças e jovens que se dispuseram a acordar cedo e dedicar quase todos os domingos do ano a participar de nossas atividades.

                    Alguns minutos de conversa e Alice fez a seguinte autoanálise:

                    _ Não sou capaz, não sou inteligente. Isso me deixa muito triste, às vezes perdida. Até dói. Acho que nunca vou ter uma vida melhor, mas pelo menos tento. Nunca vou ser como vocês.

                    A fala de Alice toca-me fundo até hoje por vários motivos.

                    O primeiro deles é que aquela afirmação iria se repetir, com pequenas diferenças, em muitas bocas de vários jovens nos anos seguintes.

                    Ou seja, essa é uma autopercepção mais comum do que se pensa e uma crença que impacta profundamente a vida de milhões de jovens em nosso país.

                    O segundo é que essa autopercepção e crença tem múltiplos motivos, alguns internos e outros externos. Sim, passa pela questão social, pela desestruturação familiar, mas também pelo que entendemos e como tratamos o estudo e a aprendizagem. É, portanto, uma questão complexa.

                    O terceiro – mais dramático e inquietante – é que ela está errada! Ela é capaz e inteligente e, com o acompanhamento, orientação e oportunidades adequadas, pode mudar peremptoriamente sua vida.

                    Em verdade, o drama de Alice é o drama de muitos estudantes, inclusive de graduados e pós-graduados.

                    Obviamente, Alice tem um gigantesco desafio psicossocial que outros talvez não tenham.

                    Mas, no fundo, ela se irmana com milhares de estudantes que não se sentem inteligentes ou não se acham suficientemente capazes de dar conta das exigências da escola, do mestrado ou de um concurso público.

                    Que fique claro, estamos falando de uma tragédia.

                    O ponto trágico dessa autopercepção e crença é que ela não fica confinada ao âmbito escolar ou universitário, o que já seria horrível. Ela desborda e atinge cada milimetro da vida. Ela maltrata a autoestima, a autoconfiança, destrói o amor próprio e engendra pessoas fragilizadas, subservientes e, dramaticamente, desinteressadas na leitura, no estudo e em qualquer processo de qualificação ou aprendizagem.

                    Afinal para que estudar se no fundo sinto poderosamente que sou incapaz? Por que me exporia ao ridículo de provar minhas próprias limitações e ignorância? Por que perderia tempo com algo que no final não vou conseguir e só vai me fazer sofrer?

                    É – como disse – uma tragédia silenciosa que ocorre na nossa frente e continuamos indiferentes a isso.

                    Muitos estudantes seguem em frente, apesar da autoimagem que alimentam em si. Seguem sôfregos, fadigados, sangrando internamente. Mesmo quando se saem bem, acham que não merecem, que foi sorte ou que estava fácil demais. No fundo, sentem-se fracassados, insatisfeitos e infelizes.

                    Este cenário tem piorado com a crise econômica, com a crescente pressão social e profissional por sucesso, independência pessoal e por viver vidas idealizadas no mundo fictício das redes sociais.

                    É o que acontece com o universo dos vestibulares e concursos públicos movido por acirrada e desproporcional competição e pressões de toda ordem. Em alguns casos, é um moedor de gente. Uma grande quantidade de estudantes começa a estudar e não apenas fica pelo caminho, herda também desequilíbrios psicoemocionais, doenças somatizadas e marcas profundas sobre sua autoestima e autoconfiança.

                    Em matéria publicada pelo site Catraca Livre[2], noticiou-se pesquisa com mais de dois mil universitários e vestibulandos que atestou que 99% deles já enfrentou quadro de estresse ou depressão. Observe este depoimento:

 

“Entrei em depressão fazendo cursinho para entrar em medicina. Desenvolvi  sintomas iniciais

durante o ano, com toda a pressão que temos de enfrentar para conseguir uma vaga. Alimentava-me mal, dormia mal, morava longe dos meus pais. Durante um mês, tive vestibulares todos os fins de semana e nos últimos chorei muito depois de terminar a prova. Eu não estava aguentando mais, meu desgaste psicológico era imenso.”

 

                    Some-se a isso, a situação curricular das escolas e universidades, com suas matérias desinteressantes, sem conexão com vida. A esperança vem de escolas e universidades que começaram a adotar rodas de diálogos, mediação, yoga, meditação, aulas de música ou robótica, dentre outras atividades humanizadoras. A maioria, continua exigindo que alunos se matem memorizando os elementos da tabela periódica. É uma inacreditável realidade.

                    Ou seja, de repente o jovem se vê arrastado por um turbilhão de pressões internas e externas e sente-se sobrecarregado, vulnerável, confuso, exausto, deprimido, sem ânimo e muitas vezes desesperado.

                    Um estudo de 1.375 artigos internacionais sobre a rotina de alunos da área da saúde constatou que 49,1% dos estudantes sofrem com problemas psicológicos. Estamos falando de 1 em cada 2 estudantes ou na metade da sua sala de aula, se preferir. É muita gente!

                    Noutro quadrante, outra pesquisa da Universidade de Brasília (UNB) com 8 mil professores da educação básica atestou que 15% deles apresenta sintomas de exaustão emocional, depressão e ansiedade, além de baixa realização profissional e sensação de fracasso.

                    O processo de aprendizagem tem se tornado um martírio repleto de competição, acúmulos, cobranças e muito pouco humanizado.

                    E isso é péssimo para todos: alunos, família, professores, instituições e país.

                    Quando tudo isso se soma a desafios psicossociais como os de Alice o cenário é desanimador e explica, em larga monta, a falta de interesse em leitura, estudo e os altos índices de evasão escolar e criminalidade juvenil.

                    Temos de conversar sobre isso.

                    Temos de nos unir e lutar contra essa tragédia silenciosa.

                    É o que faremos nos próximos artigos e onde, aos poucos, apresentaremos a metodologia do programa de aprendizagem multidimensional e contínua, que foca no ser humano por trás do estudante.

                    Mostraremos que pequenas mudanças podem causar grandes impactos.

                    Pela Alice e por todos os estudantes que desistiram ou estão sofrendo para aprender.

 

 

 

[1] Nome fictício para preservar a identidade da pessoa.

 

[2] GOMES, Tamires. Por que a universidade está deixando os estudantes doentes? Disponível em: < https://catracalivre.com.br/geral/educacao-3/indicacao/por-que-universidade-esta-deixando-os-estudantes-doentes/ > Consultado em 17/01/2018.

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