IInspirar: atitudes que transformam

A DIREÇÃO É O MAIS IMPORTANTE

March 3, 2018

 

                                            

“Mude, mas comece devagar,
porque a direção é mais importante
que a velocidade.”

(Clarice Lispector, poetisa)

 

 

 

                    É um consenso entre pensadores de várias áreas que o ritmo da vida se acelerou. Por isso temos a sensação de que já não cabem no dia todos os compromissos e as muitas possibilidades do viver.

                    Esse fenômeno alimenta um estado constante de pressa, pressão e incertezas. São tantas tarefas, demandas, pendências, responsabilidades, caminhos, projetos e sonhos que muitos deles são adiados, feitos apressadamente ou paralisados por uma dúvida sem fim. E o pior, muitas vezes o adiado é justamente aquilo que deveria ser prioritário, por ser o mais importante.

                    Ano vai e ano vem com a sensação de que se está muito ocupado, que falta tempo e certeza sobre que decisão tomar, que opções focar e para onde ir. Nesse toldo contextual, tanta gente vive apressada sem saber exatamente o que quer entre tantas coisas que deseja. Por isso, mudanças e projetos essenciais não se efetivam, não avançam.

                    O efeito acumulado sobre o psicoemocional pessoal é significativo. Pode se manifestar, por exemplo, através de sucessivas dúvidas e insegurança, através da procrastinação, da insistente desmotivação ou de uma sensação de mal-estar, de incompletude, insatisfação, tristeza e vazio existencial.

                    É nesse cenário que ganhou relevância, como nunca outrora, a descoberta do propósito pessoal. Pode-se dizer que é uma bússola que nos orienta entre as procelas das tempestades e entre as muitas possibilidades, boas e ruins, que a vida de oferece.

                    O senso de propósito desenvolve o senso de direção.

                   A clareza do propósito pessoal ilumina a singularidade do teu caminho e do teu caminhar. Por isso, ainda que todos sigam apressadamente e felizes para o leste, se você tiver o propósito bem definido e ele apontar para oeste, você seguirá seu próprio caminho, pois terá convicção de que o teu chamado vem da rota oposta, ainda que solitária, sinuosa e íngreme. Afinal, como ensinou Lispector, a direção é mais importante que a velocidade.

                    Sobre o assunto, dois livros, dentre muitos, merecem atenção. O clássico e aclamado “Em busca de sentido”, de Viktor E. Frankl e “Propósito: a coragem de ser quem somos”, de Sri Prem Baba.

                    São abordagens diferentes entre si e em relação a grande parte dos livros sobre o tema, cuja pegada é mais associada à profissão e ao trabalho, como o maravilhoso livro “Como encontrar o trabalho de sua vida”[1], do sempre brilhante Roman Krznaric.

                    A busca por um propósito não é em si um tema novo. Em verdade, ele moveu as engrenagens da filosofia e da religião e moldou a cosmovisão de mundo até a ascensão materialista pós-Newton.

                    A diferença que se vê da abordagem atual para anteriores é que o discurso atual está fortemente influenciado pela cultura individualista, mercadológica e sua obsessão por alto desempenho, enquanto a clássica tem viés existencial, terapêutico, espiritual.

                    Ou seja, aquela trabalha o propósito para que ele alimente o teu desempenho pessoal e sua capacidade de contribuição organizacional e/ou social e, por consequência, melhore tua vida. O propósito proposto por Sri Prem Baba e Viktor Frankl inverte a lógica. Propõe que o efeito imediato é a melhora geral da vida e, colateralmente, a tua resiliência, tua capacidade de lutar por teus sonhos e de contribuição social, porque tens uma direção certa a seguir. Não chegam a ser visões opostas, mas com abordagens pontualmente inversas, por vezes complementares. 

                    Em busca de sentido é um dos livros clássicos de Viktor Frankl, que estudou com Freud, mas afastou-se deste e criou sua própria escola de psicologia (Terceira escola vienense de psicoterapia): a Logoterapia, que tem o propósito como o centro orbital de sua terapia. Enquanto Freud associa neuroses a vida sexual, Frankl identifica a falta de sentido na vida das pessoas como causa de várias formas de neurose.

                    No sobredito livro, Frankl relata as agruras que vivenciou no campo de concentração nazista de Auschwitz. São relatos que transportam o leitor para um cenário hostil, mas onde Viktor construiu um sentido próprio para liberdade a partir do senso de propósito.

                    É um livro convincente, porque densifica a abstração da teoria ao amarrá-la, fio a fio, no espectro mais duro e irracional da realidade de um campo de concentração. É raro, para qualquer acadêmico e cientista, forjar sua teoria nas labaredas infernais do próprio sofrimento. Frankl fez isso com singular lucidez e do contexto de atrocidades fez emergir ao mundo um conceito poderoso de propósito que foi determinante para influenciar a contemporaneidade como poucos pensadores o fizeram sobre o tema.

                    Os fios do propósito de Frankl são tão capilares que se enlaçam com facilidade com os fios espirituais propostos por Sri Prem Baba, no seu livro “Propósito: a coragem de ser quem somos”. Embora com abordagens feitas em camadas diferentes do conceito, o encaixe improvável é seminal. Isso porque Sri Prem Baba traceja sua obra também a partir do sofrimento humano, não mais a de um campo de concentração, mas o sofrimento da incerteza pós-moderna em sua liquidez e confusão.

                    É, pois, desse cenário de desorientação que maltrata as massas que o líder espiritual constrói sua linha argumentativa para ofertar ao leitor bons insights sobre a temática.

                    Sri Prem Baba diferencia – a partir da perspectiva do Yoga - o propósito pessoal (ou interno, da alma) do propósito coletivo e maior da vida conhecido como dharma, cujo objetivo é a expansão da mente e o despertar do amor. Baba dá especial atenção aos vários fatores que interferem no desenvolvimento do propósito e do impacto que isso causa em nossa vida.

                    Enquanto Frankl trabalha o propósito na concretude das relações humanas, Sri Prem Baba refrigera o tema com a sabedoria de um líder espiritual maduro, de sorte que a combinação da leitura de um clássico e de um best-seller recente dá ao leitor a rara oportunidade de flutuar em um tênue equilíbrio de narrativas tão diferentes e ao mesmo tempo tão complementares e atuais. 

                    São, portanto, dois livros que podem iluminar o seu caminho e dar sentido e direção ao seu caminhar.

                   

Indicação de leitura: Para corações que buscam sentido a cada amanhecer, que anseiam por direção - entre tantas possibilidades - para a vida que levam. 

 

Posologia: Uma dose matinal de Frankl e um pequeno gole de Baba antes de dormir.

 

Efeitos colaterais: Assumir o peso de viver sua própria história e deixar de ouvir o ruído de caminhos que não são seus.

 

 

 

[1] Na lista das futuras resenhas.

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