IInspirar: atitudes que transformam

O PERSISTENTE SILÊNCIO DA PRIMAVERA E O GRITO DOS INVISÍVEIS

March 24, 2018

Ao testemunharmos mais um vazamento de resíduos industriais químicos em Barcarena/PA e a luta aguerrida de tantas mulheres no movimento ambientalista, constatamos que há livros que não envelhecem.

O tempo revigora o estrondo de seus alertas.

É o caso de Primavera Silenciosa, de Rachel Carson. Esta obra - para muitos como eu - é o marco inicial do movimento ambientalista moderno. Publicado em 1962, revelou-se uma navalha afiada a lacerar a empáfia do establishment científico, industrial e governamental da época, que, estupidamente, segue inflada ainda nestes tempos.

No livro, Rachel - já uma escritora de sucesso[1], mas desconhecida do mundo acadêmico, empresarial e político – apresenta um consistente e ácido libelo acusatório à política industrial de uso indiscriminado de biocidas (inseticidas), como os chamava.

Já no primeiro capítulo, Rachel apresenta uma fábula sobre uma cidade fictícia que reunia os infortúnios reais que ocorriam em várias cidades norte-americanas e mundo a fora e que eram causados pelo uso indiscriminado de biocidas e de vários agentes químicos que poluíam sistematicamente os ecossistemas e contaminavam as pessoas. Descreve:

“Havia uma estranha quietude. Os pássaros, por exemplo – para onde tinham ido? Muitas pessoas falavam neles, confusas e inquietas. Os alimentadores de pássaros nos quintais estavam desertos. Os poucos pássaros que se viam estavam moribundos; tremiam violentamente e não conseguiam voar. Era uma primavera sem vozes. Nas manhãs que outrora palpitavam com o coro de pintarroxos, tordos, pombas, gaios, carriças e diversas vozes de outros pássaros, agora não havia nenhum som. Apenas o silêncio pairava sobre os campos, bosques e pântanos. ”[2]

O livro causou alvoroço e rapidamente tornou-se um sucesso de venda e pauta de discussões públicas. O contexto de industrialização acelerada no pós-guerra, tinha nos químicos um instrumental poderoso. O establishment científico, dominado por homens, foi surpreendido com uma mulher em sua luta solitária. Os industriais logo partiram para o contra-ataque com duas frentes: pesquisa paga para refutar os dados do livro e difamação pública. A escritora logo seria tratada como solteirona, histérica e alarmista.

Rachel suportou a pressão, mesmo lutando privadamente contra o câncer – tema enfrentado no capítulo “Um em cada quatro” do livro e onde relaciona alguns tipos da doença a agentes químicos - que iria lhe matar. O livro foi determinante para grandes mudanças nos Estados Unidos e em todo mundo. Não custa lembrar que a Lei de Política Ambiental, o surgimento da Agência de Proteção Ambiental Americana, o progressivo banimento do DDT e o fortalecimento do nascente movimento ambientalista internacional são alguns de seus legados. Uma mulher obstinada derrubou gigantes e semeou futuro.

Tal como em Rachel Carson, o brio, dedicação e coragem movem muitas mulheres em nobres missões pelo planeta. Algumas delas estão relatadas no livro Dignidade[3], publicado em comemoração ao quadragésimo ano da organização médico-humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras - MSF e que traz o relato de vivências de nove escritores em situações-limite do trabalho do MSF.     

Muitas dessas situações têm relações diretas ou indiretas com questões ambientais, como as denunciadas por Rachel Carson. Outras não. Hoje se sabe a relação perversa entre riqueza mineral, degradação ambiental, pobreza, saúde[4] e violência[5].

O livro começa com o artigo comovente “Viagem ao coração das trevas” do festejado escritor peruano Mario Vargas Llosa e relata – com sua peculiar sensibilidade – a visita que fez ao campo de desalojados de Bulengo, no Congo. Llosa narra, perplexo, o drama do estupro de mulheres e crianças e como a miséria e o não acesso a alimentos e à água potável submete seres humanos a condições imorais, que se refletem em “(...) existência atroz, parasitária, que os desmoraliza e anula”.

Várias escritoras narram suas vivências de contato direto com a miséria e o sofrimento humano. A primeira delas é a brasileira Eliane Brum, com seu artigo “Os vampiros da realidade só matam pobres”, que trata da epidemia da doença de Chagas na Bolívia. A narrativa de Eliane, especialmente, o pedido desesperado de Sônia, menina de 11 anos, toca fundo e nos tira por alguns minutos da vida virtual para nos lembrar de nossa humanidade básica.

São vários relatos sobre a vida de seres humanos que lutam dia após dia pela sobrevivência em meio a pobreza, desamparo e doenças como tuberculose, leishmaniose e AIDS. No emaranhado das vivências, escritoras e mulheres simples cruzam suas vidas e narrativas e o que sai dessa conexão é a vida em estado puro, sem filtros.

A essa altura você pode estar se perguntando: por que deveria ler dois livros que tratam de problemas tão angustiantes e complexos? A resposta exigiria mais espaço, mas resumo: porque são livros que nos imunizam à banalidade do mal, despertam a centelha de humanidade que nos habita.

Livros como Primavera Silenciosa e Dignidade são essenciais em um mundo tão hedonista e individualista porque nos chamam à consciência de que a vida não se resume à bolha onde vivemos.

 

 

 

[1] Mais jovem, Rachel escrevia artigos sobre poluição para o Baltimore Sun. Identifica-se como L. R. Carson para que os leitores presumissem que se tratava de um homem e com isso evitar o descrédito do preconceito de uma sociedade machista e patriarcal.

 

[2] CARSON, Rachel. Primavera Silenciosa. 1ª edição, Editora Gaia, São Paulo: 2010, p. 21.

 

[3] Dignidade: nove escritores vivenciam situações-limite e relatam o comovente trabalho da organização Médicos Sem Fronteira. Editora Leya, São Paulo, 2012.

 

[4] No que tange à relação pobreza, degradação ambiental e saúde recomendo o premiado documentário O Pesadelo de Darwin, dirigido por Hubert Sauper.

 

[5] Sobre o ponto, recomendo a leitura do livro Colapso: como as sociedades escolhem o fracasso ou o sucesso, de Jared Diamond.

 

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