IInspirar: atitudes que transformam

A ABERTURA E O ABISMO: DECIDA LOGO!

April 15, 2018

                             

                                                                    

“O mundo não precisa de mais universidades de pesquisas geradoras de ultraespecialistas. Já temos em número suficiente. (...) Precisamos de um lugar onde as pessoas possam ir para ouvir as maiores e mais ousadas ideias, aquelas possibilidades exponenciais que ecoam Arquimedes: “Deem-me um ponto de apoio e uma alavanca e moverei a Terra.”

(Peter M. Diamandis, Abundância: o futuro é melhor do que você imagina)

 

 

 

                    Assim que entrei em casa com a caixa, meu filho Felipe se aproximou. Sentei-me à mesa e ele logo puxou a cadeira para sentar ao meu lado. Mal comecei a desempacotar o notebook e iniciou a tempestade de questionamentos.

                    Liguei o equipamento e vieram mais perguntas, algumas acompanhadas por um dedinho nervoso, ávido por amaciar o teclado.

                Fui explicando com respostas e reperguntas, estimulando-o a ouvir, raciocinar, refletir criticamente. É incrível perceber como as crianças estão abertas para o novo. Querem explorá-lo.

                    _ Quando vou puder usar?

                    _ Calma filho, você vai usar. Mas tem de aprender primeiro.

                    _ Pai, já estou me atualizando! Bradou com autoridade.

                       Restou-me rir daquele moleque fofo.

Confesso que senti também um certo alívio em ver sua abertura cognitiva. É como se meu filho tivesse dado um passo para trás do abismo que se abre sob nossos pés. Já falarei dele. Antes, convém olhar no retrovisor.

                    A fala do Felipe me transportou para um longínquo e seminal encontro na Advocacia-Geral da União no Pará com o brilhante e saudoso jurista Dr. Otávio Mendonça, uma referência para mim.

                   O ilustre advogado, que participara na AGU de uma reunião de trabalho, legou-me dez minutos de prosa. A idade muito avançada não ofuscava sua inteligência extraordinária.

                     Lá pelas tantas da conversa, falamos sobre o desafio da advocacia. E ele confidenciou-me que antigamente era mais fácil ficar atualizado. Mas, com um olhar sereno e seguro, vaticinou:

                    _ Vai piorar, mas não importa. É nosso dever estudar, preparar-se, estar aberto para o novo. Um estudante ou um profissional desatualizado vale muito pouco. Finalizou, com um ligeiro tossido e com o brilho típico de olhos que espelham percepções visionárias.

                    Guardei a previsão, o exemplo e a lição. Desde então, tento vivencia-la e ensinar aos meus filhos e alunos.

                    Já nas primeiras aulas ensino os elementos cognitivos e psicoemocionais da zona de conforto, como ela se estrutura, como adotamos estratégias de fuga, bloqueio e negação, que nos travam e sabotam, muitas vezes sem percebermos.

                 Aos poucos, ensino a importância de desaprender, de desinstalar “aplicativos” mentais e cognitivos obsoletos, que impedem que estejamos abertos ao novo, às atualizações que a vida contemporânea nos exige.

                  É só lutando contra a zona de conforto que permitimos o pulsar da vida. Afinal, estar aberto para atualizar-se continuamente já é uma das principais habilidades que a vida exige neste momento da história da humanidade, que vivencia a quarta revolução industrial, na feliz expressão de Klaus Schwab[1].

                      E, como disse o experiente causídico, vai piorar. Não por causa de alguma profecia apocalíptica, mas por conta da lógica de crescimento exponencial da tecnologia[2], que acelerou transformações, mudou o sentido de urgência e se infiltrou em todos os quadrantes de nossa vida, inclusive a pessoal e profissional.        

                O debate sobre o impacto da tecnologia já está forte em países desenvolvidos. Vários estudos e livros tratam do tema. Mas, no Brasil, a maioria das pessoas ignora o assunto.

                      É surpreendente que muitas pessoas já tenham ouvido falar de algoritmos, mas não saibam realmente do que se trata.

                 Enquanto os algoritmos e os Numeratis perscrutam, esquadrinham e esquematizam nossos padrões de comportamentos, agimos e pensamos de modo analógico como ingênuos neandertais urbanos.

                    A maioria dos profissionais de Direito ignora quem é Ross[3], assim como os de medicina ignoram o Watson[4].

                     Não deveriam ignorar.

                     Deveriam decidir logo sobre que futuro querem.

              Em uma sociedade com forte influência do mercado e obsessiva por desempenho, o avanço tecnológico põe no octógono a capacidade competitiva dos humanos e das novas tecnologias.

                  Outrora improvável, agora a tecnologia baseada em algoritmos começa a desempregar milhares de humanos com habilidades básicas. Um abismo movediço criou-se e nos países desenvolvidos começa a engolir empregos, conhecimentos obsoletos e, quiçá, vidas.

               Um dos resultados imediatos e já perceptíveis é o desacoplamento[5] denunciado por Yuval Harari no livro Homo Deus[6]. O outro é a incapacidade crítica de refletir e debater sobre os impactos sociais e éticos das novas tecnologias.

              Não se trata de um futuro longínquo. O perigoso abismo já está se materializando na vida de muitos estudantes e trabalhadores na forma de desemprego e na incapacidade de concorrer e compreender a esfinge que os devora.

                    A esta altura, você pode estar pensando: _ Ah, isso não afetará minha área, meu trabalho, minha vida. Como diria um velho amigo meu:

                    _ Sei. Vai nessa...!

                    Então, com a licença da ousadia, tenho um precioso conselho para te dar:

                    _ Pesquise. Apenas pesquise e confira.

                   As mudanças que já estão ocorrendo não têm precedentes. Nunca – repito – nunca houve nada sequer próximo do que está acontecendo. Insisto: Não se trata de futuro. A ampulheta já virou e a areia desce lépida no funil. O abismo já começou a esgarçar a terra da zona de conforto na qual fincamos nossos pés.

                  Expressiva parte dos cursos universitários ainda reproduzem um modelo de educação formatado na revolução industrial, baseado em metodologias ultrapassadas. Ignoram a ruptura. Infelizmente boa parte dos professores ainda ignora a revolução em curso e por ignorarem que ignoram, não se atualizam senão sobre o que já sabem e, por isso, vão se incapacitando, paulatinamente, a interagir com a revolução que acontece debaixo de seus pés.

               Sem auxílio de professores atualizados, as escolas e universidades regurgitam alunos totalmente despreparados para lutar e escapar da garganta do abismo, que separará os capacitados dos inempregáveis, como adverte Yuval Harari[7]:

 

“No século XXI, poderíamos assistir à criação de uma  maciça classe não trabalhadora: pessoas destituídas de qualquer valor econômico, político ou artístico, que em nada contribuem para prosperidade, o poder e a glória da sociedade. Eles não estarão simplesmente desempregados – eles serão inempregáveis.”

 

                    Em verdade, isso não é uma profecia ou um destino inexorável. Trata-se – é bom dizer – de uma possibilidade, embora plausível. E, se não gostamos dessa possibilidade, convém se informar e propor mudanças. Não será ignorando e se fechando para o perigo do novo que ele desparecerá.

                    Portanto, assim como Felipe e o Dr. Otávio Mendonça, esteja aberto para o novo – inclusive para critica-lo e transformá-lo - e lute contra o conforto da zona cognitiva e psicoemocional que aprisiona você na suas verdades, conhecimento e habilidades básicas.

                    Não há perigo que não traga oportunidades.

                    Não há oportunidades quando ignoramos o perigo.

                    E, como sugestão, informe-se sobre a era do algoritmo.

                    Ela pode te pegar.

                   

 

 

 

 

 

 

[1] Vide o livro The Fourth Industrial Revolution, Klaus Schwab, fundador e executivo do Fórum Econômico Mundial.

 

[2] Vide lei de Moore e as certeiras previsões das pesquisas de Ray Kurzweil.

 

[3] Tecnologia artificial que funciona como assistente jurídico.

 

[4] Tecnologia de computação cognitiva da IBM.

 

[5] A incapacidade do ser humano competir com a performance das novas tecnologias.

 

[6] Em breve farei a resenha cultural deste livro no site.

 

[7] HARARI, Yuval Noah. Homo Deus: uma breve história do amanhã. Tradução Paulo Geiger. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2016, p. 329.

Please reload

Featured Posts

VIDA ALÉM DA FOLIA

February 27, 2019

1/10
Please reload

Recent Posts

February 27, 2019

January 1, 2019

November 2, 2018

Please reload

Archive
Please reload

Search By Tags