IInspirar: atitudes que transformam

MEUS BONS AMIGOS, ONDE ESTÃO? AS AMIZADES ASSEGURAM NOSSA IDENTIDADE.

April 18, 2018

                                      

                                      

                 Meus bons amigos, onde estão? Notícias de todos, quero saber! É assim que começa mais um hit do Barão Vermelho, antecedido, é claro, de acordes da guitarra ou do violão, a depender se o show é acústico ou não.

                Esses versos do rock nacional me vieram numa noite chuvosa em Belém. É preciso esclarecer para quem não conhece a metrópole amazônica: embora a chuva seja absolutamente cotidiana, não costuma precipitar-se à noite. Feito esse esclarecimento pluviométrico, o que importa é que a chuva caiu à noite, e com ela vieram ideias e sentimentos que a luz do dia ofusca e que a paz de uma garoa constante ajuda a trazer.

                Tenho que a amizade é a forma mais madura de amor. Isso porque sabe ser compartilhada sem pretensão a monopólios, e frutifica mesmo à distância, já que amigos estão sempre perto, ainda que divididos por oceanos. É curioso isso. Passe anos sem ver um bom amigo, e se ele era realmente um bom amigo, vocês jamais conseguirão se conjugar no passado, bastará um encontro casual, ou uma inusitada ligação, e vencida uma possível timidez inicial, tudo estará ali intocado, o puro afeto até potencializado pela saudade.

                Matematicamente falando, a amizade só opera adições e multiplicações. Subtrair ou dividir é terminantemente proibido. Amigo que tem sentimento de posse sobre outro é tudo, menos amigo, está mais para pessoa insegura que desenvolveu co-dependência afetiva.

                Em verdade, os amigos são atracadouros seguros de nossa identidade, onde fazemos a baldeação dos momentos mais difíceis. Justamente porque os escolhemos, e não porque nos foram impostos, dá para a partir dos nossos amigos visualizar à perfeição a rota que traçamos na vida. O rastro de amigos por onde fomos passando muito diz sobre quem fomos e queríamos ser. Esse é talvez o nosso melhor autorretrato, um espelho que quem olha não vê apenas o próprio reflexo: fomos construídos boa parte por aqueles que nos devotaram sua amizade, seus exemplos, suas opiniões e seus gostos.

                Que fique claro: amigo pode ser - e aconselha-se que seja - também o de sangue, o irmão que proveio do mesmo ventre materno, ou o pai que deu o sobrenome, já que a amizade é a partícula básica de toda forma de amor, mesmo o familiar e o marital. Até a bíblia nos lembra que há amigos mais chegados que irmãos.

                A amizade é o amor construído em plena liberdade. Sem as peias de um ciúme descontrolado, sem a pretensão de benefícios outros que não o amigo em si.  Um casamento não terá sucesso, mesmo que nascido da mais ardentes das paixões, se os cônjuges não souberem cultivar a amizade entre si, aprendendo a compartilhar da alegria de serem os melhores amigos da vida um do outro. É certo que o que se enlaça nos matrimônios é um amor plural, cheio de facetas, mas que deve estar aplainado substancialmente numa franca e tenra amizade. Casais que guardam reservas entre si, que não gozam de uma transparência fraterna, que não brincam juntos, que se eximem de compartilhar confidências e não se permitem a sutileza de ter no outro o amigo mais especial, dificilmente experimentarão o sublime do casamento.

             Com amigos não temos meias palavras, falamos o que pensamos, e nos sentimos livres para assumirmos nossa própria absurdidade, dispensadas a construção de aparências de perfeição. São raros os locais e quem podemos nos desarmar e nos apresentar apesar de – e em razão de - nossos defeitos. Esse local é a conversa com um amigo. No bate papo dos amigos, os defeitos são virtudes das quais se ri ou objeto de crítica leal e construtiva.

                Por outro lado, é um desafio desse nosso tempo manter as amizades a despeito das possíveis diferenças políticas, filosóficas e religiosas. Tem sido comum no deserto das redes sociais a degradação de boas e longas amizades por conta de debates acalorados intermediados por uma fria tela de celular ou de computador. Amizades desfeitas por colocações infelizes na sempre difícil comunicação escrita.

                Louva-se a tecnologia que nos mantém conectados com os amigos distantes, no entanto, é preciso não subestimar a força do contato pessoal, da conversa ao alcance de um abraço. Embora resistente por natureza, a amizade também precisa ser nutrida. É comum na correria do dia-a-dia nos vermos como aquela música de Paulinho da Viola, em que os interlocutores - dois amigos que há muito não se veem - só podem trocar umas poucas palavras enquanto o semáforo ainda está fechado.[1]

                É preciso fugir dessa armadilha da correria da rotina, do excesso de trabalho, do assoberbamento de obrigações, e até de uma possível timidez paralisante: manter uma amizade também demanda postura proativa e um certo esforço, e corresponde, em última instancia, em conservar a própria integridade pessoal e espiritual. Não estaremos por inteiro sem o afeto dos amigos queridos. Quem se distancia dos amigos, corre o sério risco de uma solidão paralisante e de perder a bússola de sua auto-identidade. Sem os amigos, somos menos. Investir nos bons amigos sempre rende os melhores juros, especialmente para si próprio.

                Poucas circunstâncias podem ser tão avassaladoras como perder um bom amigo, seja pela imponderabilidade da morte, pela falta de cuidado com a amizade, ou, pior, em decorrência de uma desavença destruidora. Não é à toa que Albert Camus, em seu “A peste”, sentencia que não há armistício para o homem que enterrou um amigo. É verdade. E se da morte natural ninguém escapa, evitemos, ao menos, que nossas  amizades morram por inação nossa.

                Dia 18 de abril é popularmente conhecido como o dia do amigo, momento mais que oportuno para ressurgir-se diante do amigo, nunca perdido, sempre reencontrado[2], e ressoar para ele o sentimento que os uniu na vida, e que resultou no surgimento dessa amizade transformadora para ambos. Não desperdice a data, pode ser uma boa chance para marcar um encontro, não apenas com o amigo, mas também com quem você era. Faz bem lembrar quem se foi, ajuda a avaliar quem estamos, já que como humanos nunca estamos prontos, vivemos nessa metamorfose ambulante cantada por Raul.

PS: Em tempo, Cecília, minha pequena grande amiga de 4 meses, e referenciada na minha última coluna[3], continua crescendo e aprendendo. Já é, com certeza, dessas melhores amigas que a vida me presenteou. É tão maravilhoso ser amigo de um bebê. Mal posso esperar para chegar em casa para continuar aquela conversa que paramos num idioma que só a gente entende!

 

TE DESAFIO

 

Já te esforçaste em retomar uma amizade perdida ou esquecida, mas que julgas valiosa para ti?

Qual tem sido a prioridade que tens dado na conservação de seus amigos?

Teus amigos mais antigos ainda te reconhecem? Continuas a fazer jus às tuas amizades?

 

 

 

[1] https://www.youtube.com/watch?v=IEUPH1A7YkM

 

[2] Soneto do Amigo de Vinicius de Moraes

 

[3] https://www.iinspirar.org/single-post/2017/12/31/EU-PAI

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