IInspirar: atitudes que transformam

TEMERÁRIO FASCÍNIO: O QUE O DINHEIRO NÃO COMPRA? O QUE A TECNOLOGIA NÃO PODE TRANSFORMAR?

May 27, 2018

                   A crise de desabastecimento que o país enfrenta por conta da mobilização dos caminhoneiros nos propiciou – com mais clareza – o aumento abusivo de preços de produtos em falta, sejam gêneros alimentícios ou dos próprios combustíveis.

                    Em 2004, quando o furacão Charley deixou um calamitoso rastro de destruição e prejuízos na Flórida muitos comerciantes também se utilizaram de preços abusivos para lucrar alto, mesmo em um cenário de catástrofe e comoção nacional.

                    Este fenômeno foi analisado por Michael Sandel no livro Justiça: o que é fazer a coisa certa. Sandel narra o amplo debate que ocorreu na opinião púbica sobre os preços extorsivos e o assunto inflamou os norte-americanos.        

                    Como se sabe, as principais conquistas da civilização decorreram ou se aperfeiçoaram a partir de reflexões, críticas e contribuições do debate público.

                    Por melhor que seja uma ideia, raramente ela nasce pronta.

                    Ao revés, é o amplo debate público que permite, no mais das vezes, a aprimoramento de ideias, projetos, atividades.

                    Esse é o ponto que une, sob perspectivas diferentes, Michael J. Sandel e Yuval Noah Harari.

                    O filósofo estadunidense Sandel é conhecido nos meios acadêmicos mais eruditos, mas tornou-se famoso com suas concorridas aulas e palestras sobre filosofia na universidade de Havard e por seu livro Justiça: o que é fazer a coisa certa. O historiador israelense Yuval Harari ganhou fama mundial com seu livro Sapiens: uma breve história da humanidade.

                    Mas esta resenha não é sobre estes best selleres. Interessa-nos o livro O que o dinheiro não compra: os limites morais do mercado, de Sandel e o livro Homo Deus: uma breve história do amanhã, de Harari.

                    Não é possível escapar incólume da leitura concomitante desses dois provocantes livros.

                    A combinação é mágica porque eles tratam de assuntos diversos e conseguem ser incrivelmente complementares. Diria mais, os argumentos que se entrecruzam, ora potencializam, ora refutam os argumentos centrais da outra. Quiçá porque – dirão os mais espavoridos – mercado e tecnologia são serpentes da mesma Hidra de Lerna.

                    É que ambas trazem como argumento de força a necessidade premente de se estabelecer um debate público sério e amplo sobre as profundas mudanças que o mercado e a tecnologia já estão causando em nossas vidas, notadamente em assuntos e setores sensíveis ao que há de mais caro aos seres humanos e à vida em sociedade.

                    Parece inequívoco que o mercado e a tecnologia nos fascinam, enfeitiçam, deslumbram. Guardada a medida da comparação, mas às vezes agimos como insetos encandeados pela luz, que rodopiam presos pelo encanto da luminosidade que os cega.

                    É curioso, por exemplo, que mesmo diante de preços abusivos - cobrados em uma circunstância de crise - não haja debate público sobre isso.

                    Por isso é bom perceber que este estado de fascínio nos traz também muitas questões. Obliterar a razão pelo fascínio é uma decisão razoável?

                    Convém ajustar o foco e é isso que Sandel e Yuval fazem. De forma diferentes, ambos autores nos questionam: é isso que realmente queremos? Há outras possibilidades? Estamos prontos para assumir o preço dessas mudanças?

                    Parece-me que não, como também não é razoável negar as maravilhas do mercado e da tecnologia ou pretender combate-los despropositadamente.

                    Pode parecer, mas na prática, não são questões simples, sobretudo quando se sabe que expressiva parcela da população não só não vai refletir sobre essas mudanças, como já está sendo e será cada vez mais penalizada por elas.

                    O livro O que o dinheiro não compra: os limites morais do mercado demonstra à luz solar como fomos resvalando de uma situação de ter uma economia de mercado para nos tornarmos uma sociedade de mercado. São coisas bem diferentes e sequer debatemos essa mudança tão impactante, denuncia.

                    É razoável que nos submetamos a preços abusivos em situações extremas? Ou que sejam vendidas vagas preferenciais nas filas dos parques de diversão ou vender opção de vias livres nas horas de rush em vias expressas ou ainda vagas em concorridos leitos hospitalares e na disputada agenda de congressistas? Convém que se venda o direito à imigração, o direito a poluir, barrigas de aluguel ou órgãos humanos?

                    E os limites da propaganda: na sociedade que queremos convém permitir que a publicidade esteja em todo lugar, inclusive em praças públicas, livros, corpos e cada vez mais invada nossa privacidade a atinja nossas crianças?

                   É ético que se permita que um rico compre o direito de caçar um rinoceronte raro, cuja caça é proibida para o restante da população, desde que ele pague o valor suficiente para bancar a fiscalização anual da caça ilegal dos rinocerontes e com isso teoricamente ajude a preservar a espécie?

              No sobredito livro, Sandel alerta sobre o vazio moral da política contemporânea e seu esforço de banir do debate público os ideais,  questões morais e espirituais. Explica como essa opção abriu caminho para o triunfalismo de mercado e a ascensão do raciocínio mercadológico. Ou seja, por falta de debates públicos sobre o que pode ou não ser vendido não decidimos, mas o mercado decide.

                    Sandel explica que o mercado altera o caráter dos bens e como nos relacionamos com eles, pondera que o comercialismo corrói o comunitarismo e o senso de cooperação e equanimidade. Por isso, entende que precisamos nos perguntar qual o lugar do mercado e onde ele não deve estar. Queremos uma sociedade onde tudo está à venda ou existem coisas que o dinheiro não compra? Pondera, Sandel.                  

                    Harari, por sua vez, oferta um livro provocante: Homo Deus. Em muitos aspectos é exagerado e não faltam motivos para criticá-lo, especialmente no que toca à frágil coleção de afirmações simplistas e desbotadas de viés materialista sobre a vida e a espiritualidade, que não resistem a uma réplica mediana de um experto.

                    Contudo, o ponto alto do livro é sobre a tecnologia. Neste quadro, traz fatos perturbadores. Fatos. Não apenas possibilidades. Fatos sobre a aceleração exponencial dos avanços tecnológicos, em especial dos algoritmos e a revolução que isso representa.

                    É um livro seminal para várias questões e diversos debates. Por isso, foco no impacto da rápida expansão dos algoritmos. Harari explica que a inteligência está se desacoplando da consciência. Máquinas já são muito mais inteligentes que humanos em vários campos e isso só vai aumentar. Esta aceleração tecnológica já está gerando outro desacoplamento: a incapacidade do ser humano competir com a performance das novas tecnologias.

                    Em muitos momentos é um livro que assusta. Não só pelo que pode acontecer, mas pelo que já está ocorrendo agora.

                    Harari cita vários exemplos sobre o incrível desempenho dos algoritmos, que se expandem e aperfeiçoam rapidamente e que já conseguem dirigir empresas, carros, caminhões, diagnosticar doenças, preparar petições jurídicas, identificar padrões emocionais, compor músicas altamente refinadas, dialogar com outros seres humanos sem que estes percebam que conversam com robôs, resolver problemas de altíssima complexidade e desenvolver por si só capacidade autônoma de aprendizagem, estratégia e replicação.  

                    Parece filme de ficção científica? Sim, mas já está acontecendo. São fatos e a maioria das pessoas não tem a mínima noção disso e ignoram que, provavelmente, seus empregos estão prestes a evaporar.

                    O curioso da leitura desses livros é que Sandel e Harari defendem um debate público sobre a expansão do mercado e da tecnologia, respectivamente. Mas divergem na análise prospectiva. Enquanto Sandel identifica na expansão do mercado uma expansão do liberalismo. Harari acha que o dataísmo e a expansão tecnológica é uma séria ameaça ao liberalismo e sua crença de valor do indivíduo, já que a supervalorização das máquinas e tecnologias subvalorizarão massas de humanos.

                    A hipótese de Harari é menos convincente. Não só porque Sandel – embora comunitarista - é um dos maiores estudiosos do liberalismo, mas por claramente entender bem mais de sua dinâmica.

Não creio que o avanço tecnológico irá ameaçá-lo. Em verdade, sabemos que desde o início a revolução tecnológica alimentou-se da lógica liberal.

                    É mais provável que o mercado e a tecnologia continuem avançando indefinidamente pela visível apatia política de se resistir a seus efeitos mais perversos e em razão do nosso perigoso desinteresse pelo debate intelectual e público, como recentemente lamentou um dos mais importantes filósofos contemporâneos: Jürgen Habermas[1]. Na prática, é mais provável que cada vez mais o mercado porá tudo à venda e cada vez mais espaços serão invadidos e dominados pelas tecnologias e algoritmos, inclusive porque cada vez mais poder terá o mercado.

                    O que isso vai representar para vida de seres humanos?

                    Delicie-se com esses ótimos livros e tire suas conclusões.

                   

 

 

 

[1] Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2018/04/25/eps/1524679056_056165.html?id_externo_rsoc=FB_BR_CM

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