IInspirar: atitudes que transformam

O QUE SE GANHA EM SE PERDER? LIÇÕES DE UMA COPA DO MUNDO.

July 20, 2018

               Me perdoem o atraso na publicação.

              Esta coluna estava prevista para o começo do mês. Não consegui. O gol de Kevin de Bruyne num tirambaço diagonal a estufar a rede do arqueiro brasileiro teve mais externalidades (ou internalidades?!) do que se podia imaginar. Com o fim da partida fui diagnosticado com severo quadro de falta de criatividade. Agudíssimo. Os sintomas não mentiam. Tudo ficou branco, um blackout pelo avesso. Me vi aéreo por dias, simplesmente não conseguia escrever ou manter qualquer linearidade de pensamento, não importa se o objetivo era escrever uma coluna para o IInspirar ou tão-só compor a lista de compras da semana.

              A vitória da Bélgica sobre a onzena canarinha nos tirou de todos – ou pelo menos dos que amam o futebol - uma semana como viventes da Copa do Mundo. Uma semana a mais de boa ansiedade. Uma semana a mais de união nacional. Uma semana mais de férias da odienta polarização política.

              Saímos da Copa mas ela não sairá mais da gente. Nem agora que a França já comemora seu bicampeonato e que a Copa terminou para todo mundo, ainda assim ela continuará a emanar boas lições que de bom grado devemos colher. Coisas que o esporte ensina e que uma rápida e quase intuitiva reflexão são capazes de pescar.

              A primeira de todas as lições dessa Copa é bem tupiniquim e particular:  senti – ineditamente - que aprendemos a perder. Nenhuma trama estapafúrdia foi cogitada, nenhuma escusa conspiratória criada.

              Nós, torcedores brasileiros, carregamos conosco uma certa arrogância futebolística, hereditariamente repassada que não admite derrotas dentro das quatro linhas. Algo como se apenas nós, os compatriotas de Pelé, Garrincha e Romário, soubessem realmente lidar com a pelota e que eventual derrota do Brasil só poderia significar um abalo no equilíbrio dos astros ou um mórbido conluio entre os jogadores.

              Dessa vez foi diferente. Houve maciço reconhecimento do esforço da seleção brasileira em reverter um quadro desfavorável diante de um valoroso adversário – e que adversário! Soubemos perder. Essa lição fica para muito além das arenas esportivas e é um bom legado da Copa para a juventude e, porque não, para todos nós.

              Aprender a perder é doloroso mas fundamental para a caminhada. Como nos portamos diante da derrota acaba se mostrando inequívoco sinal de amadurecimento e de desenvolvimento pessoal. Não é novidadeiro que a derrota ensina muito mais que a vitória, pavimentando com solidez o caminho de um futuro sucesso apenas momentaneamente adiado. Não são poucos os relatos de grandes figuras humanas que, antes de verem suas ideias e ações triunfarem, foram abatidas por sucessivas e acachapantes derrotas. O caráter dos vencedores é forjados aí, no calor das batalhas, e, em especial, na superação do abatimento diante do fracasso.

              Não é à toa que a palavra da moda é resiliência. Essa capacidade física de alguns materiais voltarem ao seu estado de origem depois de serem submetidos a forte pressão ou outra força deformadora tem sido muitas vezes referenciada como uma característica importante da personalidade humana. O vencedor de hoje costuma ser o resiliente de ontem, que desenvolveu um aprendizado na derrota, levantou, sacudiu a poeira e deu a volta por cima. Não se está aqui a fazer propaganda da derrota, ou uma ode ao derrotismo. Longe disso. O que aqui se defende é que saber perder é ensinamento fundamental da formação humana, e que se torna melhor aquele que transforma a perda em experiência de melhora.

              A seleção brasileira soube perder com altivez, sem descambar para a violência ou desculpas insólitas. Agora resta saber se vai captar as lições que a derrota ensina, pondo em prática no próximo ciclo de quatro anos o que a Copa da Rússia mostrou. A mesma avaliação devemos fazer no âmbito pessoal, na ocasião da renovação dos nossos ciclos e do enfrentamento de nossas querelas pessoais. Para cada um de nós, quase todo dia pode ser uma final de copa do mundo e a oportunidade de uma nova vitória e de dias melhores. Nesse quadro, como não falar do arrastador exemplo de N´Golo Kanté, volante da França que no título francês de 98, com apenas 7 anos, colhia o lixo de uma Paris em festa para ajudar sua família pobre. Agora, 20 anos depois, Kanté foi um dos melhores jogadores do mundial, presença marcante em dez entre dez da seleção de melhores jogadores do campeonato.

              Por falar em Kanté, da Copa também se extrai forte mote a favor do multiculturalismo e a diversidade.

              As seleções europeias, há bem pouco tempo palidamente monocromáticas, hoje são um festival de cores, de credos, de línguas e de culturas futebolísticas distintas. Isso os fortaleceu. França e Bélgica, possivelmente as duas melhores seleções do torneio, são times recheados de jogadores de origens africana, árabe, persa, latina, dos Bálcãs e, exatamente por isso, são times bem mais temíveis e completos que antes.

              O multiculturalismo e a diversidade demonstraram que, acaso encontrem um terreno propício, frutificam. Bem ou mal, e com todos os preconceitos que também se irradiam no futebol, dentro de campo, com a bola rolando, a internacionalização dos times de futebol parece ter criado uma produtiva e producente cultura de tolerância que só reforçou o esporte.

              O revanchismo raivoso contra o multiculturalismo sofreu um baque. Foi mostrado à audiência de bilhões de pessoas que saber explorar os bons aspectos das diferenças entre os homens e suas culturas é elemento catalisador do sucesso, e que as diferenças são boas sim se examinadas sob um olhar de tolerância e sem ressaibos de hegemonia. A interação harmônica e vencedora de pessoas com histórias de vida e formação cultural tão diferentes é um dos legados mais eloquentes da Copa e da campeã. Que vingue para além dos gramados, adentrando nas empresas, nas sociedades civis, na comunidade política.

              Poderia enumerar ainda uma penca de outras reflexões que a Copa fez emergir. Tenho certeza que reparando com atenção, vários outros leitores teriam algo a dizer sobre algum outro aspecto aqui não abordado, mas fecho a coluna com a emocionante declaração de Casagrande[1], ex-futebolista e comentarista de transmissão da Globo, que sob a enorme audiência da final de Copa revelou que tinha firmado propósito de ir e voltar sóbrio da Rússia, tarefa especialmente difícil, tendo em vista os conhecidos exageros de toda ordem nas copas do mundo. Derrotado inúmeras vezes pelo vício, o ex-atacante da seleção brasileira tinha em mãos uma maiúscula vitória pessoal, infinitamente maior que os 4 a 2 da seleção francesa, e cuja coragem de compartilhar certamente vai ajudar outros que enfrentam o mesmo problema. Parabéns, Casão! Que também o seu exemplo arraste muitos.        

             

TE DESAFIO

Como tem sido sua postura diante de fracassos?

A cada derrota você consegue identificar possíveis erros ou prefere procurar bodes expiatórios?

Você tem sabido explorar as diferenças de uma maneira que potencialize os seus ambientes de convivência?

 

 

 

[1] https://globoesporte.globo.com/futebol/copa-do-mundo/noticia/casagrande-se-emociona-com-copa-sobrio-galvao-chora-e-arnaldo-anuncia-aposentadoria.ghtml

Please reload

Featured Posts

VIDA ALÉM DA FOLIA

February 27, 2019

1/10
Please reload

Recent Posts

February 27, 2019

January 1, 2019

November 2, 2018

Please reload

Archive
Please reload

Search By Tags