IInspirar: atitudes que transformam

A CIDADE E AS MANGUEIRAS

July 26, 2018

           Desde que Antonio Lemos assumiu a chamada Intendência de Belém, hoje Prefeitura Municipal, pela primeira vez em 1897 e “procurou arborizar a cidade com mudas de mangueiras, por considerar esse vegetal o mais resistente, como também pela facilidade de aquisição e por desenvolver-se rapidamente”[1] que essas árvores não passavam por uma crise tão expressiva.

            Os tempos eram outros. Vivíamos ainda o intitulado período da borracha, época em que a manufatura desta substância resultou num crescimento econômico da região, com reflexo na capital do Estado. A borracha era o principal produto voltado para o comércio internacional.

            Nesse momento, dizia-se, importava ao intendente transformar Belém numa cidade organizada, bonita e com traços europeus. Diversas providências foram tomadas quanto a costumes ditos primitivos para reprimi-los, como contra o hábito de quarar roupas no meio da rua ou o fechamento de cortiços no centro da cidade. Por outro lado, criou-se o Horto Municipal para fazer face à necessidade de plantio de árvores, seja nas ruas como também para suprir o amplo programa de criação de parques e praças levados adiante pelo Prefeito. O Código de Posturas de 1900 proibia que as árvores fossem cortadas ou apedrejadas, em especial as andirobeiras, seringueiras e castanheiras.[2] O maior inconveniente da época eram os populares que arrancavam os frutos das mangueiras à luz do dia.

            De lá para cá, o inconveniente tornou-se a própria mangueira. No início do Século XX quase não havia automóveis na cidade e seus para-brisas não eram “violentados” por bruscas quedas de mangas; tampouco fios elétricos, telefônicos, cabos de tv por assinatura eram “atrapalhados” pelas mangueiras. Também não havia tantos prédios com garagens com a árvore parecendo sempre estar no caminho.

            É muito provável que você não encontre mais árvores de andiroba, seringueira ou castanheira em Belém, a não ser poucos exemplares em praças ou nos escassos parques públicos da cidade, mas a mangueira, apesar de nativa da Ásia, tornou-se um símbolo da cidade e merece uma discussão sensata sobre sua importância não só estética, mas quanto ao bem-estar da população em geral, bem como, a partir desse debate, floresça uma discussão maior sobre a arborização local e nas cidades de modo geral.

            Belém está na Amazônia, mas não é uma das cidades brasileiras mais arborizadas do país, muito pelo contrário. Em um ranking elaborado pela revista Galileu[3], quando ainda havia 5.565 municípios no Brasil (hoje são 5.570), Belém ocupava a nada confortável 5.063 posição no ranking nacional e a 91ª posição no próprio Estado.

            Se considerarmos as áreas verdes, de 1986 até 2001, Belém havia perdido 40 km² de área verde.[4] Em estudo mais recente[5], de seis distritos urbanos estudados de um total de oito que a cidade possui, considerados o índice de cobertura vegetal (ICV) e o índice de cobertura vegetal por habitante (ICVH), índices cujos parâmetros indicam o possível equilíbrio térmico que as áreas verdes podem proporcionar para conforto do belenense, três distritos apresentaram números bem abaixo do recomendado, 30% e 15m² por habitante, respectivamente.

            Tais números chamam atenção especialmente por que foram encontrados nos distritos mais populosos da cidade, onde estão inclusive os bairros considerados nobres: o distrito DABEL apresentou IVC de 11%, o DAGUA de 4,33% e o DSAC 8,42%. O DAGUA é, inclusive, considerado um deserto florístico, local com elevada temperatura, ausência de áreas verdes e grande desconforto térmico.

            Considerando os bairros individualmente, a Cremação estaria com 9,92% de cobertura vegetal; São Brás, com 11,91%; Marco, 5,24% e Pedreira, com 4,54%. Porém o Marco teria a pior situação porque 3% dos seus 5,24 % de cobertura vegetal deve-se a presença do Parque Zoobotânico Bosque Rodrigues Alves, considerada para o estudo uma área privada em função de precisar pagar o acesso para desfrutá-la[6].

            É um quadro muito ruim que se mantém ruim por décadas e que somado ao fato de Belém ser a capital do país com maior número de favelas proporcionalmente[7], agrava a situação. Favelas são sinônimo de pobreza e esta condição faz com que as pessoas não possuam uma consciência ecológica aguçada, pois tem que se preocupar com temas que digam respeito à sobrevivência cotidiana como, por exemplo, trabalho, habitação, alimentação e água potável. Neste contexto quais são as perspectivas para a cidade em fazer com que as pessoas se conectem ou reconectem com seu ambiente verde?

             A cidade é a nossa casa ampliada e como tal deve ser um lugar não só do trabalho, mas do descanso, da recreação, da contemplação, dentre outros. As áreas verdes exercem o duplo papel do lazer e do combate ao estresse. É o momento que nos encontramos e nos identificamos com nossa terra, nossa casa.

           Dois autores das ciências sociais e biológicas trataram quase que contemporaneamente da relação homem-meio ambiente e que vão nos ajudar para concluir este artigo.

             O primeiro foi Yi-Fu Tuan, geógrafo chinês naturalizado norte-americano, que cunhou o conceito de topofilia (topo=lugar + filia= amor, amizade, afeto) como "o elo afetivo entre a pessoa e o lugar ou ambiente físico", um sentimento que nos faz experienciar a natureza, o meio ambiente, de forma tão íntima numa verdadeira unidade com todo o significado afetivo da palavra[8].

           Para os que comungam desse conceito, a identidade com o ambiente e que o transforma em especial provém desde as percepções em movimento, em casa ou quando se vai para trabalho, por exemplo, identificando aquele espaço como único e a própria afetividade em relação a pessoas e lugares que os tornam familiares e íntimos.

           O segundo autor é Edward Osborne Wilson, entomólogo e biólogo americano, autor dos livros Biofilia (1984) e a Hipótese da Biofilia (1994). Nas obras, Wilson expõe o conceito que se traduz em propor que os seres humanos tem uma relação inata de amor pela natureza (bio=vida +filia=amor, afeição). Tal condição é hereditária e explica a nossa vontade e curiosidade, desde tenra idade, de ter contato com a natureza.

       Mas, apesar dessa hereditariedade, a biofilia precisa ser estimulada, posto que a condição de vida do ser humano pode influenciar para que esse sentimento de amor fique guardado numa caixa.

            Estudos mostraram que pessoas que se mudam de bairros com menos áreas verdes para outros com mais áreas verdes tem benefícios para saúde mental por pelo menos três anos, mas aqueles que fazem o caminho contrário e se mudaram para bairros menos arborizados tiveram prejuízos mentais imediatos. O Centro para Meio Ambiente e Saúde da Universidade de Chiba, no Japão, informa que “Parques, jardins, flores, fitocidas (substâncias produzidas por plantas contra micro-organismos) têm efeitos benéficos em humanos”. Nos EUA, pacientes em contato com o verde saíram mais cedo do hospital, tomaram analgésicos mais fracos ou em menos quantidade, tinham menos comentários críticos sobre a enfermagem e menor número de pequenas complicações pós-cirúrgicas. No Japão, há diversos lugares onde se pratica a “terapia da floresta”, uma caminhada por áreas verdes com potencial de curar o estresse[9].

             Como vencer, então, a indiferença do habitante da cidade com o corte e envenenamento de árvores na cidade e no geral com o ambiente verde urbano?

             Como dito acima, a biofilia é inata, mas precisa ser estimulada. E evidentemente esse estímulo deve partir do Poder Público com ampla participação do citadino.

         Em primeiro lugar ser transparente com a política de áreas verdes. Em Belém, há um Plano Municipal de Arborização, mas não uma propaganda institucional voltada para que a população o conheça e possa defendê-lo. Seria necessário bem mais que outro artigo para tratarmos do conteúdo especificamente desse plano. Portanto, além da transparência, a comunicação também é uma importante ferramenta para reverter o descaso da população com as áreas verdes.

            Em sequência, é necessária a criação de mais áreas verdes com aspectos ainda preservados como se florestas fossem acessíveis, gratuitos e com equipamentos públicos de apoio e segurança para visitação e contemplação pela população. Cito apenas um que já poderia ter sido terminado, com relativo baixo custo: o Parque Ambiental Municipal de Belém, que por enquanto está apenas no papel, sem condições de visitação e que foi inclusive listada a sua conclusão como compensação ambiental para a construção da hoje Avenida Centenário.

           Por outro lado, se é certo que as mangueiras são tombadas, há diversas áreas da cidade onde mangueiras são retiradas e outras não são colocadas no lugar. Isso estimula a impunidade e o corte raso de mangueiras na área central de Belém.

       Por fim, é preciso trazer a população para o tema. Criar mecanismos de envolvimento e participação popular, em repartições públicas, escolas, empresas privadas, shoppings, nas ruas. Atrair as mais variadas associações e ONG’s estabelecidas na cidade e o próprio Ministério Público para que haja também uma defesa concertada de toda a sociedade civil. O que está sendo feito hoje, não congrega, não tem coordenação, não é visível e não tem escala que seja considerado uma cultura implantada. É preciso inovação e inventividade em tempos de poucos recursos públicos.

           É apenas um começo, mas que todos ganharão em saúde, vida e amor.

 

 

 

[1] Memórias do Velho Intendente Antonio Lemos, Paka-tatu, 2002, pág. 138

 

[2] Belém: Riquezas produzindo a belle-époque, Paka-tatu, 2002, pág. 164

 

[3] http://revistagalileu.globo.com/revista/common/0,,emi310881-17770,00-veja+se+sua+cidade+e+bem+arborizada+e+compare+com+as+outras+do+brasil.html, acesso em 27 de maio de 2018.

 

[4] Belém Sustentável – Patrícia Paranaguá ...[et al.]. – Belém: Imazon:2003, pg. 38

 

[5] Atlas de Áreas Verdes da Cidade de Belém. Luziane Mesquita da Luz, Jose Edilson Cardoso Rodrigues. 1. ed. - Belém: GAPTA/UFPA , 2012

 

 

[6] http://marte.museu-goeldi.br/museuempauta/index.php?option=com_k2&view=item&id=284:estudo-aponta-a-preocupante-perda-de-%C3%A1reas-verdes-em-bel%C3%A9m , acesso em 27 de maio de 2018.

 

[7] http://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/para-tem-a-capital-e-a-cidade-com-a-maior-proporcao-de-moradores/n1597418140326.html; e

https://brasil.estadao.com.br/noticias/geral,regiao-metropolitana-de-belem-tem-maior-proporcao-de-favelas-diz-ibge,1093776, acessos em 28 de maio de 2018

 

[8] in VÍNCULOS TOPO-BIOFÍLICOS NA INTERAÇÃO VISITANTES E PAISAGEM RURAL EM ITU/SP, https://www.google.com/url?sa=t&rct=j&q=&esrc=s&source=web&cd=2&cad=rja&uact=8&ved=0ahUKEwjjgYX_ndjbAhVDx5AKHQb_BbQQFggxMAE&url=https%3A%2F%2Frepositorio.unesp.br%2Fbitstream%2Fhandle%2F11449%2F104330%2Fsantos_vl_dr_rcla.pdf%3Fsequence%3D1&usg=AOvVaw16RY_R4Zxgf3qODFfL4_nv, acesso em 28 de maio 2018

 

[9] Todos os dados extraídos do texto: Biofilia. Fomos programados para amar a vida https://www.brasil247.com/pt/247/revista_oasis/229305/Biofilia-Fomos-programados-para-amar-a-vida.htm, acesso em 12 de junho.

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