O VOTO, AS MULHERES E EU.

October 22, 2018

Talvez hoje seja um bom dia para escrever sobre meu trabalho com mulheres. Dos porquês de ter escolhido, de uns tempos para cá, me dedicar à elas, especialmente.

Sinto que os parágrafos serão terapêuticos, ao menos para mim. E já te peço perdão se eles se tornarem indigestos. É que falar de mulher, muitas vezes é ter de encarar o azedo, o amargo, o dolorido, embora também coexistam a beleza e a benção. Paradoxo.

Mulher é vida – não somente a vida nela mesma, mas vida em tudo o que é humano. Ela é a responsável pela nossa espécie, pois detém o útero, que acolhe e desenvolve.

Já teve seu lugar de honra nas sociedades antigas, muito antigas. Quando a cultura era matrifocal, lá no paleolítico. Não, não se trata de uma época em que tínhamos poder sobre os homens. Éramos igualitários. Porém, por gerarmos vida, fazíamos parte do sagrado, éramos respeitadas.

Mas isso mudou. E faz tempo. Foi a partir de mudanças climáticas, mais ou menos há 10.000 anos, como nos contam os antropólogos da atualidade. Tivemos grandes migrações e lutas por alimentos. Neste contexto, a força dos músculos era mais importante que o colo da mulher. E nesta trilha, culminando com leis criadas por homens, em que os direitos da mulher foram excluídos, como por exemplo com o rei Hamurabi, na Mesopotâmia ou com Moisés, durante o êxodo do povo hebreu, fomos destituídas do nosso lugar nas tribos. Nos tornamos objetos. Seres sem alma, em muitas culturas.

Enfim - migramos ao patriarcado e cá estamos nós, tentando um respiro no meio de um mundo regido por falos, medos e tabus.

Hoje, 07 de outubro de 2018, dia de primeiro turno nas eleições presidenciais, quando na fila da escola, pronta para gravar meu voto, me lembrei das sufragistas – as mulheres corajosas que lutaram para que eu e as mulheres da atualidade pudessem ter este direito reconhecido. Apanharam, foram presas, renegadas pelos maridos, separadas de seus filhos. Isso para que eu e mais um mar de mulheres pudéssemos ter um espaço na democracia.

Estava lá, com minha “cola” na mão, pensando nelas e no quanto demoramos para sermos consideradas algo além de um objeto, um adendo, um enfeite. E esse "algo além” ainda não é muito além, saiba. Falta muito chão para termos um lugar de direito, como deve ser.

Ainda na fila me lembrei que já fui proibida de trabalhar, de estudar, de me vestir desta ou daquela maneira, simplesmente porque alguém achou que assim deveria ser. Que já fui censurada, tolhida, calada, machucada (na mente e no corpo) e que não tinha ninguém ali para me defender. Até porque as mulheres, também encharcadas deste caldo machista, andaram acreditando que isso era o certo e que no final, tudo bem assim.

Eis minha dor original - nascer mulher e sofrer no convívio com o masculino, com essa energia que pode ser linda, quando usada para o apoio e não para o poder.

E, por falar em dor original, acho melhor desenvolver um pouco mais o assunto, até porque se trata de uma boa pista sobre o primeiro parágrafo deste texto.

Segundo o mitólogo Joseph Campbell, os contos e fábulas são construídos com um roteiro básico que se repete porque retratam a realidade humana.  Falam de nós. Nos mitos encontramos nossa maneira de ser e existir no mundo. E, dentre os que conheço, alguns me reverberam alto ao coração, pois falam de mim, desta tal dor que já gerou um misto de raiva, medo e tristeza.

Reza a lenda que a deusa asteca Coaticlue tinha 400 filhos quando decidiu que já não queria mais gerar. Voltou-se ao marido e comentou que não teria  mais relações sexuais com ele, afinal, como podemos imaginar, não é tarefa fácil parir tanto assim. Estava cansada… Entretanto, e apesar de se abster das relações com o marido, Coaticlue engravidou ‘magicamente’, através de uma pluma que caiu em seu corpo, durante um passeio no jardim. Os filhos, raivosos, por acharem que a mãe havia traído o pai, tramaram matá-la. Porém, uma de suas filhas, ao saber da situação, alertou a mãe, que buscou se proteger. O que acontece é que, por ter denunciado os irmãos, a menina foi por eles decaptada, imediatamente.

Coaticlue, a mãe, desesperada em sua dor, lamentou a perda de sua filha amada por longo tempo. Depois decidiu transformar a cabeça da filha na lua, para que iluminasse os caminhos dos viajantes, nas noites escuras do mundo.

Coaticlue representa o arquétipo da curadora ferida.

Levou luz ao mundo a partir de seu luto. Encontrou um sentido em sua dor.

Assim nascem os curadores. De suas feridas, de suas dores, de seus espantos. De suas existências marcadas por chagas profundas, que buscam no mundo o alívio dos repuxos e agulhadas, através do cuidado com os outros.

Assim nasce meu trabalho com mulheres. Da raiva que virou compaixão.  Da dor que virou amparo. Da tristeza que virou força.

Porque hoje entendo que não é culpa deles, mas da cultura. Que somos vítimas de vítimas. E que, assim sendo, só conseguiremos mudar o que é, saindo da ignorância, rumo a um outro lugar, pelas vias do amor.

Já não desejo mais a luta, o braço-de-ferro com homens. Já não quero mais o saber para confrontos. Desejo que as mulheres sejam fortes em suas qualidades, apenas isso. Que sejam inteiras no acolhimento, na serenidade, na flexibilidade, no amor e não no ódio. Porque o mundo precisa dos valores do feminino para continuar existindo. Porque a natureza precisa de respeito, do cuidado, da coexistência. Porque precisamos das qualidades do Yin para trazermos equilíbrio ao mundo.

Já não quero mais me vestir com armaduras do masculino para enfrentar um mundo pautado no masculino. Essa estratégia inconsciente me fez uma mulher dura e exausta, por longo tempo.

Já não quero convencer homens que temos valor. Não precisamos disto. Se nos valorizarmos pelo que somos já teremos convencido quem precisamos convencer. E eles seguirão nosso ritmo, porque admiramos quem se gosta, quem se valoriza.

Isso nada tem a ver com egoísmo ou orgulho. Não! Tem a ver com reconhecermos luz e sombra. E fazermos as pazes com o que é. E seguirmos, firmes, rumo a uma nova cultura, onde podemos nos apoiar, nos complementar e nos amar, como deve ser.

Por isso trabalho com mulheres. E é por isso que amo meu trabalho.

Por fim, tenho algumas perguntas para ti:

-     Por que você faz o que faz?

-     Quais assuntos mexem contigo?

-     Existe em ti alguma dor que precisa ser ressignificada?

 

As perguntas não são por curiosidade, mas por necessidade.

Buscar as respostas é ir em busca de pistas essenciais na construção do nosso sentido de vida.

Porque a vida se faz de dor e amor. De ignorâncias e descobertas. De desconstruções.

E é neste caldo nutritivo que (quando mais conscientes) crescemos.

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