IInspirar: atitudes que transformam

SENTIR O SENTIDO

November 2, 2018

                                                           

 

“O que separa o nascimento da morte é o tempo.  Vida é o que fazemos dentro desse tempo; é a nossa experiência. Quando passamos a vida esperando pelo fim do dia, pelo fim de semana, pelas férias, pelo fim do ano, pela aposentadoria, estamos torcendo para que o dia da nossa morte se aproxime mais rápido. (...) Vida acontece todo dia, e poucas vezes as pessoas parecem se dar conta disso.”

(A morte é um dia que vale a pena viver, da médica Ana Cláudia Quintana Arantes).

 

 

 

    Qual o sentido da minha vida?

    Esta pergunta que ecoa em tantos corações e atravessa os milênios recentemente ganhou renovados prismas, especialmente com o surgimento da medicina de cuidados paliativos e no atual contexto cultural onde a busca por propósito é a pegada da presente geração.

    Selecionei dois livros que permitem um olhar diferenciado sobre o tema: perceber a vida através da morte.

    Não tenha medo. São leituras leves e inspiradoras.

    Essa perspectiva não é exatamente nova. Livros provocativos como o romance As intermitências da morte, do escritor português José Saramago e o vanguardista Sobre a morte e o morrer, da médica Elisabeth Kubler-Ross já adotam essa percepção, ambos com retumbante sucesso.

    Mas gostaria de falar de dois livros muito interessantes – pelo tom intimista e instigante de ambas as obras -, quais sejam: A morte é um dia que vale a pena viver, da médica Ana Cláudia Quintana Arantes e Aproveite cada sanduiche: e viva cada dia como se fosse o último, do também médico Dr. Lee Lipsenthal.

    Enquanto Ana Cláudia Quintana Arantes faz um sensível e forte relato sobre os esforços hercúleos de uma médica que cuida de pessoas no final da vida e sobre o que estas pessoas têm para nos dizer, o Dr. Lee Lipsenthal se descobre com uma doença terminal, com pouco tempo restante de vida.

    São dois médicos em ângulos diferentes do problema e, apesar disso, com muitos pontos em comum. Um deles é que o sentido da vida não advém apenas da razão, mas, sobretudo, do sentir. Deveria ser óbvio, já que a palavra sentido vem do sentir.

    Mas não é. A maioria das pessoas subestima o quanto tratar a finitude nos torna mais sábios, o quanto encarar a morte faz bem para vida.

     Os dois livros trazem lindas lições de luta e transformação a partir de situações reais, exemplos de atitude perante a vida nos momentos mais críticos, que transportam o leitor para suas próprias emoções e, quiçá, medos e vivências. Trazem, sobretudo, tocantes relatos sobre a força que o propósito pode ter na vida das pessoas.

     A morte é um dia que vale a pena viver, da médica Ana Cláudia Quintana Arantes é daqueles livros que você não esquece. Às vezes está no trânsito, no trabalho ou estressado e ele te chama à reflexão.

    O livro é tão bom que é difícil indicar seus pontos altos. Ainda assim, confesso que alguns capítulos me tocaram bastante, como o que trata do medo da morte e o medo da vida. Outro capítulo explica o processo ativo de morrer, da dissolução dos quatro elementos (terra, água, fogo e ar) e o que se debruça sobre considerações sobre o tempo.

    Muito além de um relato médico, é uma narrativa leve, por vezes filosófica, por vezes poética, sempre demasiadamente humana.

     O livro Aproveite cada sanduiche: e viva cada dia como se fosse o último, do Dr. Lee Lipsenthal traz momentos dramáticos, tocantes, como o capítulo 9 (Jogos mentais), que narra o momento da viagem com seu filho para o início de sua vida acadêmica, bem como do seu esforço para administrar seus vários papéis sociais e ter a rédea dos jogos mentais que a situação suscita através da prática da gratidão. No capítulo 10 (O som de um coração se partindo) narra o momento em que seus filhos e pais ficam sabendo da sua doença (“_Isso significa que você vai morrer? Pergunta o filho).

    No decorrer do livro, Lipsenthal nos conduz a perspectivas que só as restrições e a finitude nos trazem. O capítulo 18 (Viver e morrer fora da caixa) é o arremate de sua obra e o faz em grande estilo, ao legar percucientes ponderações não sobre a morte, mas sobre o viver, sobre sentir o sentido.

    Não há como ler e sair incólume da leitura desses dois belos livros. Eles demonstram, em quadrantes diferentes, que a morte pode se tornar um belo jardim cheio de vida.

 

Indicação de leitura: a) Pessoas que reclamam demais; b) Pessoas que menosprezam o sentido de suas vidas; c) Pessoas que desperdiçam vida com “pesos” inúteis; d) Pessoas que estão enfrentando doenças graves ou têm casos assim entre amigos e familiares.

Posologia: Duas doses de leitura e reflexão antes de cada vontade de reclamar da vida ou de desperdiçar a vida com o que não importa. Nos casos mais graves, pode dobrar a dose de leitura e reflexão.

Efeitos colaterais: Dentre os efeitos observados destacam-se a sensação de que isso pode acontecer com você, arrependimento do tempo perdido, desejo de aproveitar melhor cada sanduiche, vontade súbita de mudar e de viver plenamente, alegria de ter acesso à sabedoria que os livros trazem.

 

 

Please reload

Featured Posts

VIDA ALÉM DA FOLIA

February 27, 2019

1/10
Please reload

Recent Posts

February 27, 2019

January 1, 2019

November 2, 2018

Please reload

Archive
Please reload

Search By Tags