A TRAGÉDIA DE BRUMADINHO E A NATUREZA HUMANA



O trágico desastre de Brumadinho, Minas Gerais, causado pelo rompimento da barragem da Mina do Córrego do Feijão, de responsabilidade da empresa Vale, nos traz tristeza, perplexidade e indignação pela repetição de erros grosseiros que, se corrigidos, poderiam ter evitado a tragédia.

A postura dos responsáveis pelo desastre revela uma cultura de ambição, egoísmo, insensibilidade e desprezo por bens tão preciosos como a vida, a dignidade humana e o meio ambiente.

Desastres ambientais sempre criam uma psicosfera propícia a reflexões essenciais em decorrência do sofrimento imposto às vítimas, suas famílias e pela comoção e empatia coletiva que o evento catastrófico gera.

Dentre os muitos aspectos importantes que estão sendo abordados, um ponto relevante passa quase despercebido e, por isso, convém destacar: é a manifestação de nossa capacidade de solidariedade e cooperação.

Para além da evidente teia empática que se forma, é bonito perceber a onda de solidariedade e colaboração que se irradia por todo Brasil. Em todo país surgiram pontos de coleta de donativos, dezenas de ativistas e voluntários se apresentaram para mobilizar campanhas e promover serviços sociais, jurídicos, médicos, psicológicos, veterinários, espirituais, buscas, socorro, acolhimento e amparo às vítimas.

Mesmo entre os profissionais que trabalham por força do dever, é evidente a entrega total, a vontade de fazer o melhor e que a grande maioria estaria ali se arriscando, colaborando e se dedicando com a tanta acuidade e disciplina, ainda que voluntariamente.

Diante de um crime tão chocante que ceifou tantas vidas e causou tantos danos socioambientais e, por outro lado, de manifestações tão sublimes de amor, o que estas atitudes revelam sobre a natureza humana?

Não se trata de preciosismo ou de um subtema secundário e desimportante. Esse é um aspecto central no debate filosófico que se desenrola há séculos sobre a natureza humana e que afeta a forma como percebemos o outro e o mundo em nossa volta. Portanto, aspecto capital, pois influencia nossas crenças e ações.

Durante séculos prevaleceu a ideia de que a natureza humana é má, egoísta, individualista e preponderantemente competitiva. Talvez essa tragédia te incline a perceber o ser humano assim. Essa ideia floresceu com aportes filosóficos, psicológicos e sociológicos de pensadores eminentes como Thomas Hobbes, Adam Smith, Charles Darwin e Sigmund Freud que confrontavam a visão de outros filósofos como Rousseau, que defendia que a natureza humana é boa.

Nos últimos anos, contudo, a maré virou. Vários autores de escol demonstram através de estudos sérios e dados objetivos que a natureza humana é sim solidária e colaborativa, como se percebe na teia de solidariedade que se forma a cada tragédia, flagelo e evento catastrófico.

Ou seja, estamos diante de um novo paradigma, baseado no senso de cooperação, onde se constata que cooperar é uma ação intrínseca ao ser humano e que foi determinante à sobrevivência e evolução da espécie humana. Neste sentido, destacam-se os livros Revolução do Altruísmo, de Matthieu Ricard, Sapiens: uma breve história da humanidade, de Yuval Harari, Os anjos bons de nossa natureza: porque a violência diminuiu, de Steven Pinker e Babel, de Zygmunt Bauman.

O prestigiado psicólogo Steven Pinker destaca que a cooperação humana é uma das grandes descobertas da psicologia evolutiva. Explica que as emoções sociais que a sustentam – como a compaixão, gratidão, confiança – foram e são essenciais para nosso êxito evolutivo, pois permitem que as pessoas prosperem em jogos de soma positiva[1], onde a cooperação permite que todos ganhem.

Por sua vez, o ex-biólogo e famoso monge budista Matthieu Ricard demonstra com vários estudos a importância de comportamentos cooperativos e como estes prevalecem mesmo em cenários de destruição como nos desastres ambientais. Vejamos[2]:


Contrariamente ao que a avalanche de notícias chocantes que aparecem muitas vezes nas mídias nos levam a pensar, inúmeros estudos demonstram que quando ocorre uma catástrofe natural ou algo dramático, a ajuda mútua é muito mais a regra do que cada um por si, a partilha que a pilhagem, a calma que o pânico, a dedicação que a indiferença, e a coragem que a covardia.


Ou seja, a solidariedade e cooperação que vemos nas atitudes de centenas de voluntários que estão se mobilizando durante esta tragédia atestam não apenas que são pessoas generosas e altruístas, mas também e principalmente a essência de nossa natureza humana.

Não somos anjos, tampouco somos seres inclinados ao mal, como prega o fatalismo do paradigma hobbesiano. Somos seres complexos. Convivemos com luz e sombra habitando em cada um de nós. Logo, todos temos o potencial para amar. Atitudes solidárias e cooperativas como percebemos nesse momento de sofrimento coletivo provam isso.

Essa descoberta recente é uma mensagem de otimismo e alento, em meio a um momento de tristeza e indignação que pode nos levar a conclusões erradas sobre quem somos como espécie.

Em verdade, a própria tristeza e indignação atestam a evolução e crescente refino de nosso senso ético, outrora indiferente a atrocidades e sofrimento coletivo, mas agora cada vez mais desperto.

Cabe-nos, pois, transformar esse senso ético e nosso senso de cooperação em ações transformadoras para que tragédias como esta não mais ocorram.





[1] “Um jogo de soma positiva é um cenário no qual os agentes têm escolhas que podem melhorar a situação dos dois jogadores ao mesmo tempo. Um clássico jogo de soma positiva no cotidiano é a troca de favores, na qual cada pessoa pode proporcionar um grande benefício a outra a um custo pequeno para si mesmo.” (PINKER, Steven. Os anjos bons de nossa natureza: porque a violência diminuiu. São Paulo: Companhia das Letras, 2013, p. 124.)


[2] RICARD, Matthieu. A revolução do altruísmo. Tradução Inês Polegato. São Paulo: Palas Athena, 2015, p. 35.

#DesastreBrumadinho #NaturezaHumana #Solidariedadeenaturezahumana #Altruísmoenaturezahumana

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IInspirar: atitudes que transformam